sexta-feira, 23 de março de 2018

23 de março 18

Olho para o que está registrado nestes postes e me pergunto se eu somente sei escrever quando estou deprimida, quando algo me aflige, quando estou com medo, receio, depressão.
Fazem aproximadamente três anos que não posto nada, então devo ter sido uma pessoa muito feliz, por muitos dias seguidos.
Espero que esta seja a resposta, pois a outra opção é que a minha criatividade está morrendo e esta opção é inenarravelmente mais assustadora que qualquer outro medo com o qual eu possa me deparar.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Lágrimas ou Homens

 
   Quando eu era criança me falaram que homens não choram. E me disseram que a chuva eram as lágrimas que Deus havia derramado pelos pecados dos homens. 
    A partir desse dia a chuva me intriga. Vejo as gotas caírem e me pergunto: se Deus pode chorar por aquilo que ama, por que aos homens não é dado o mesmo direito? Serão os homens melhores do que Deus por não lhes ser permitido chorar? Ou será que as lágrimas são permitidas apenas aos seres superiores, aqueles que não precisam temer que algumas gotas de água lave sua masculinidade?
    Talvez eu venha a encontrar Deus em algum momento. Se isso ocorrer eu sei qual será minha primeira pergunta. E talvez, apenas talvez, ele vire a cara envergonhado, escondendo os olhos inchados e diga timidamente que a humanidade esta enganada, que a chuva não são suas lágrimas, mas apenas uma irritação no olho, o inicio de uma conjuntivite. 

sábado, 30 de agosto de 2014

De que precisamos...

"Não é de livros que você precisa, é de algumas coisas que antigamente estavam nos livros. (...) Os livros eram só um tipo e receptáculo onde armazenávamos muitas coisas que receávamos esquecer. Não há neles nada de mágico. A magia está apenas no que os livros dizem, no modo como confeccionavam um traje para nós a partir de retalhos do universo."

Ray Bradbury - Fahrenheit 451

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

The Second Coming

                                                               by William Butler Yeats

Turning and turning in the widening gyre   
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere   
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst   
Are full of passionate intensity.

Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.   
The Second Coming! Hardly are those words out   
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert   
A shape with lion body and the head of a man,   
A gaze blank and pitiless as the sun,   
Is moving its slow thighs, while all about it   
Reel shadows of the indignant desert birds.   
The darkness drops again; but now I know   
That twenty centuries of stony sleep
Were vexed to nightmare by a rocking cradle,   
And what rough beast, its hour come round at last,   
Slouches towards Bethlehem to be born?


A Segunda Vinda

Girando e girando a voltas crescentes
O falcão não escuta o falcoeiro.
Tudo se parte, o centro não sustenta.
Mera anarquia avança sobre o mundo,
Marés sujas de sangue em toda parte
Os ritos da inocência sufocados.
Os melhores sem suas convicções,
Os piores com as mais fortes paixões.

É certo, está perto a revelação;
É certo, está perto a Segunda Vinda.
Segunda Vinda! Mal digo as palavras
E a imagem vasta do Spiritus Mundi
Turva-me a vista: no pó de um deserto
Um corpo de leão de crânio humano,
O olhar vazio e duro como o sol,
Move as pernas pesadas, e ao redor
Rondam sombras de pássaros coléricos.
Volta a escuridão; mas eu sei agora
Que o sono pétreo desses vinte séculos
Deu em sonho mau no embalo de um berço.
Qual besta rude, vinda enfim sua hora,
Arrasta-se a Belém para nascer?

(tradução de Paulo Vizioli)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Especulação sobre a Verdade

"O que é a mentira, senão uma verdade na qual não acreditamos? A verdade portanto, por outro lado, é algo tão precioso que devemos guardá-la num cofre como se fosse a nossa própria vida. A verdade é um segredo a latir como um cão no abismo da nossa alma, a verdade é uma pequena estrela a brilhar na escuridão da mentira. A verdade é um apostema, um lúgrebe ciclone, uma fêmea alucinante."

Ana Miranda. A Última Quimera

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Sobre do que o homem é feito

"O homem consiste de mais peças, de mais partes que o mundo; não o que o mundo faz, mas sim o que o mundo é. E se aquelas peças fossem ampliadas, e fossem estendidas para o homem como elas se encontram no mundo, o homem seria um gigante, e o mundo um anão; o mundo, um simples mapa, e o homem, o mundo." (trecho Meditação IV)

Meditações, John Donne

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Origem de nossa Instabilidade

"Mãe, monogamia, romantismo. A fonte jorra bem alto; o jato é impetuoso e branco de espuma. O impulso não tem mais que uma saída. Não é de admirar que esses pobres pré-modernos fossem loucos, perversos e desgraçados. Seu mundo não lhes permitia aceitar as coisas naturalmente, não os deixava ser sãos de espírito, virtuosos, felizes. Com suas mães e seus amantes; com suas proibições, para os quais não estavam condicionados; com suas tentações e seus remorsos solitários; com todas as suas doenças e intermináveis dores que os isolavam; com suas incertezas e sua pobreza - eram forçados a sentir as coisas intensamente. E, sentindo-as intensamente (intensamente e, além disso, em solidão, no isolamento irremediavelmente individual), como poderiam ter estabilidade?"

HUXLEY, Aldous - Admirável Mundo Novo

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Filosofia HUXLEY

"Todos os moralistas estão de acordo em que o remorso crônico é um sentimento dos mais indesejáveis. Se uma pessoa procedeu mal, arrependa-se, faça as reparações que puder e trate de comportar-se , melhor na próxima vez Não deve, de modo nenhum, pôr-se a remoer as más ações. Espojar-se na lama não é a melhor maneira de ficar limpo."

Aldous Huxley - Prefácio 1946 - AMN

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Tai-pan

" Se não esta disposto a ser o segundo melhor, 'embarca o' quanto antes. O que eu estou a tentar fazer-te compreender é que para ser o Tai-Pan da Casa Nobre tem de se estar preparado para existir só, ser odiado, ter qualquer objetivo de valor imortal, e estar preparado para sacrificar qualquer pessoa de quem não se sinta seguro. Porque és meu filho ofereço-te hoje,  não experimentada, a oportunidade do poder supremo na Ásia. E por isso o poder de fazer quase tudo sobre a terra."
(CLAVELL, James, Tai-Pan.)


domingo, 30 de junho de 2013

Poema sem Título e sem Autor

Em uma folha de papel amarelo com linhas verdes ele escreveu um poema
E o intitulou "Chops" porque era o nome de seu cão
E era o que estava em toda parte
E seu professor lhe deu um A e uma estrela dourada
E sua mãe o abraçou à porta da cozinha e leu o poema para as tias
Era o ano em que o padre Tracy levava todas as crianças ao zoológico
E ele deixou que cantassem no ônibus
E sua irmãzinha tinha nascido com unhas minúsculas e nenhum cabelo
E sua mãe e seu pai se beijaram tanto
E a garota da esquina mandou para ele um cartão de Dias dos Namorados assinado com vários X
e ele teve de perguntar ao pai o que significava X
E seu pai deixou que ele dormisse na sua cama à noite
E era sempre lá que ele dormia
Em uma folha de papel com linhas azuis ele escreveu um poema
E o intitulou "Outono"
porque era o nome da estação
E era o que estava em toda parte
E seu professor lhe deu um A
e o pediu para escrever com mais clareza
E sua mãe não o abraçou à porta da cozinha por causa da pintura nova
E as crianças disseram a ele que o padre Tracy fumava cigarros
E largava as guimbas no banco da igreja
E às vezes elas faziam buracos
Que era o ano de sua irmã usar óculos com lentes grossas e armação preta
E a garota da esquina riu
quando ele pediu para ver Papai Noel
E os garotos perguntaram por que
a mãe e o pai se beijavam tanto
E seu pai não o cobria mais na cama à noite
E seu pai ficou furioso
quando ele chorou por isso.
Em um pedaço de papel de seu caderno
ele escreveu um poema
E o intitulou "Inocência: Uma Questão"
porque a questão era sobre uma garota
E isso estava em toda parte
E seu professor lhe deu um A
e um olhar muito estranho
E sua mãe não o abraçou à porta da cozinha
porque ele nunca o mostrou a ela
Foi o primeiro ano depois da morte do padre Tracy
E ele esqueceu como terminava
o Creio em Deus Pai
E ele pegou a irmã
se agarrando na varanda dos fundos
E sua mãe e seu pai nunca se beijavam
nem mesmo conversavam
E a garota da esquina
usava maquiagem demais
O que fez ele tossir quando a beijou mas ele a beijou mesmo assim porque era a coisa certa a fazer
E às três da manhã ele se aninhou na cama seu pai roncava alto
É por isso que no verso de uma folha de papel pardo
ele tentou outro poema
E o intitulou de "Absolutamente Nada"
Porque era o que estava em toda parte E ele se deu um A
e um corte em cada maldito pulso
E se encostou na porta do banheiro porque nessa hora ele não pensou que poderia alcançar a cozinha.

(Extraído da Obra de Stephen Chbosky,As Vantagens de Ser Invisível)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Invictus


                                  William E Henley

OUT of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
   
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.
   
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

Tradutor: André C S Masini

Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.

Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.

Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.

Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Sobre a Juventude

" É ilusão pensar que a mocidade seja feliz, uma ilusão daqueles que a perderam. Os jovens sabem que são miseráveis, pois alimentam os falsos ideais que lhes foram incutidos e todas as vezes que entram em contato com o real sentem-se magoados e contundidos. Dir-se-ia serem vítimas de uma conspiração. Os livros que lêem, livros ideais pela necessidade de seleção, e a conversa dos mais velhos, que olham para o passado através da nuvem rosada do esquecimento, preparam-no para a vida irreal. São obrigados a descobrir por si próprios que tudo o que leram e tudo o que lhes ensinaram é mentira, mentira, pura mentira. Cada nova descoberta é mais um prego que lhes fixa o corpo a cruz da vida."



(Maugham, S. W. - Servidão Humana)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Limitação dos olhos


                                                                                                                           D.M.Bontorin
                                                                                                          para Rafaela T.

Nós, em toda nossa limitação, tentamos enquadrar as cores, as pessoas, em determinados grupos. Esses grupos podem ser restritos: os verdes, os vermelhos, os amarelos. Ou ainda, podem ser grupos maiores: cores frias, cores quentes, tons terrosos, claras, escuras, etc. 
Suprimisse ao máximo qualquer capacidade de individualidade, de unidade, de ser não um azul mas um azul cerúleo. 
O que mais atormenta minha alma é ter consciência dessa predisposição  a classificar as cores, as pessoas, e mesmo assim não ser capaz de não o fazer. 
Controlo-me ao máximo, faço analise do meu próprio comportamento e no fim estou discriminando, dizendo que um laranjado nunca será puro pois ele não é um vermelho e nem um amarelo. Demora um tempo até eu perceber o que estou fazendo, até eu parar e perceber: "ele simplesmente o laranjado, ele não tem que ser nem tão vivo como o vermelho, nem tão intenso como o amarelo e se eu chegar mais perto perceberei que mesmo se eu o comparar aos outros laranjados ele ainda será diferente, será único. Comparações são desnecessárias".
Aceito esse fato, aceito o laranjado, mas quando viro os olhos me deparo com o lilas, "que cor mais imprópria, não decide quem quer ser: é uma cor fria ou uma cor quente? como é que eu vou saber. Acho melhor deixa-la de lado e usar o bom e velho laranjado."

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Jerusalem

William Blake  (1804)


And did those feet in ancient time
Walk upon England’s mountains green?
And was the Holy Lamb of God
On England’s pleasant pastures seen?

And did the countenance divine
Shine forth upon our clouded hills?
And was Jerusalem builded here
Among these dark Satanic Mills?

Bring me my bow of burning gold!
Bring me my arrows of desire!
Bring me my spear! O clouds, unfold!
Bring me my chariot of fire!

I will not cease from mental fight,
Nor shall my sword sleep in my hand,
Till we have built Jerusalem
In England’s green and pleasant land.


Jerusalem, 1804, poema de William Blake, se tornou um hino (não oficial) para os Ingleses. Nele Blake traz a beleza da Inglaterra, bem como a degradação encontrada em seu seio e a necessidade de lutar contra essa. David Erdman, em seu livro Blake: Prophet Against Empire, mostra que Satanic Mills se refere as fábricas de Londres.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Sobre a Liberdade


"A Liberdade é estrangeira, como tantos outros deuses que os americanos prezam. Nesse caso uma francesa, apesar que, em deferência as sensibilidades americanas, os franceses tenham coberto aquele peito magnífico da estatua que deram de presente a Nova York. A Liberdade (...) é igual a uma casca de banana, só que com gosto ruim e ironia incluída. (...) A Liberdade é uma cadela que deve ir para a cama sobre um colchão de cadáveres, (...) uma cadela que gostava de trepar no refugo da guilhotina. Segura a sua tocha o mais alto que puder, minha cara, porque ainda tem um monte de ratos no seu vestido e um corrimento gelado escorrendo pelas suas pernas."
"Eu acho que ela é bonita" disse Shadow
"Essa" disse Wednesday "é a estupidez eterna do homem. Andar atrás da carne doce, sem perceber que não passa de uma cobertura bonita para ossos. Comida de verme. Você passa a noite se esfregando em comida de verme. Sem ofensa."

Neil Gaiman
Deuses Americanos

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Considerações a respeito da morte...

    Soneto 71
    William Shakespeare
    (Tradução de Jorge Wanderley)



    Quando eu morrer não chores mais que à hora
    De ouvir os sinos insensíveis dando
    O aviso ao mundo vil: - que fui embora,
    E entre vermes mais vis estou morando.

    Nem lembres em meu verso, por momentos,
    A mão que o escreveu: pois te amo tanto,
    Que é melhor me esquecer teu pensamento
    Do que lembrar e te levar ao pranto.

    E se acaso um dia um verso meu retomes
    Quando ao barro eu for parte reunida,
    Não lembres nem sequer meu pobre nome;

    Decline o teu amor com minha vida.
    Não veja o mundo, se sogres por mim,
    Razão de zombaria após meu fim. 

                                                                   

domingo, 18 de novembro de 2012

Preludio de Morte

“Death is before me today
Like the recovery of a sick man,
Like the going forth into a garden after sickness

Death is before me today
Like the odor of myrrh,
Like sitting under a sail on a windy day.

Death is before me today
Like the course of the freshet,
Like the return of a man from the war-galley to his house.

Death is before me today
As a man longs to see his house
When he has spent years in captivity.”

(Pyramid Texts, 3000 BC, cf. Miriam Lichtheim: ‘Ancient Egyptian Literature’, Part I, 1973)


                           *****


“A morte está diante de mim hoje:
como a recuperação de um doente,
como ir para um jardim após a doença

A morte está diante de mim hoje:
como o odor de mirra,
como sentar-se sob uma vela num bom vento

A morte está diante de mim hoje:
como o curso de um rio,
como a volta de um homem da galera para a sua casa

A morte está diante de mim hoje:
como o lar de um homem que anseia por ver,
após anos passados como um cativo”

(cf. recitado por Sandman, Neil Gaiman)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O Corvo


    by Edgar Allan Poe
    (tradução de Fernando Pessoa)                                   


    Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
    Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
    E já quase adormecia, ouvi o que parecia
    O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
    "Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
    É só isto, e nada mais."

    Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
    E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
    Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
    P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
    Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
    Mas sem nome aqui jamais!

    Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
    Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
    Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
    "É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
    Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
    É só isto, e nada mais".

    E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
    "Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
    Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
    Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
    Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
    Noite, noite e nada mais.

    A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
    Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
    Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
    E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
    Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
    Isso só e nada mais.

    Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
    Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
    "Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
    Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
    Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
    "É o vento, e nada mais."

    Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
    Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
    Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
    Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
    Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
    Foi, pousou, e nada mais.

    E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
    Com o solene decoro de seus ares rituais.
    "Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
    Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
    Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
    Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
    Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
    Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
    Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
    Com o nome "Nunca mais".

    Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
    Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
    Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
    Perdido, murmurei lento, "Amigos, sonhos - mortais
    Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
    "Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
    Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
    Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
    E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
    Era este "Nunca mais".

    Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
    Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
    E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
    Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
    Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
    Com aquele "Nunca mais".

    Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
    À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
    Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
    No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
    Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
    Reclinar-se-á nunca mais!

    Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
    Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
    "Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
    O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
    O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
    Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
    A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
    A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
    Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
    Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
    Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
    Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
    Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    "Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
    Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
    Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
    Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
    Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
    No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
    Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
    E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
    E a minhalma dessa sombra que no chão há mais e mais,
    Libertar-se-á... nunca mais!

                                              ******

    (para acessar a versão original do poema clique aqui)
    (para acessar a versão traduzida por Machado de Assis clique aqui)

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Elfenlied (Canção do Elfo)



A noite na vila, o vigia gritou "Onze*!"
Um pequeno Elfo dormia na floresta – por volta das onze horas! -
E ele achou que a brisa noturna chamou o seu nome, do vale
...
Ou talvez Silpelit** estivesse chamando por ele.

Então o Elfo esfrega seus olhos, sai de sua casa caracol
E é como um homem bêbado, sua soneca não foi terminada;
E ele cambaleia, tip tap, através da enevoada floresta até o vale,
desliza por cima da parede;
Lá se senta o vaga-lume, luz sobre luz.

"O que são estas janelas brilhantes?
Deve haver um casamento lá dentro;
As pequenas pessoas estão festejando e se divertindo pelo salão.
Então eu apenas irei dar uma espiada!"

Vergonha! Ele bate sua cabeça em uma pedra dura!
Bem, Elfo, você já teve o suficiente?
Cuco! Cuco!

* Em alemão Elf pode significar Onze.
** No manga do Elfen Lied, Silpelip foi usado para se referir aos "mutantes" ou humanos-evoluidos, nos quais se baseia a história.

Elfenlied é um poema escrito pelo alemão Eduard Mörike e adaptado para canção por Hugo Wolf.
A versão acima foi feita através da tradução em inglês do poema, ficando provavelmente um pouco diferente da versão original (em alemão).

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Extraído do Jargão


"Sempre imaginei que poderia escrever uma coluna de economia usando un jargão falso assim, com pseudônimo. Não sei quanto tempo duraria até eu ser descoberto e desmascarado, mas acho que não seria pouco. Não estou dizendo que quem escreve sobre economia não sabe o que está escrevendo, ou se aproveita da ignorância generealizada para enganar. Estou dizendo que a análise econômica é uma arte tão imprecisa que, mesmo desconfiando do embuste, a maioria hesitaria antes de denunciá-lo. Quem garantiria que o meu enfoque diferente -minha defesa de um overspread corretivo sobre base de pagamentos, por exemplo- não era uma novidade que merecia estudo, já que ninguém parece mesmo saber o que é o certo?"


Luis Fernando Veríssimo,
Jargão - Comédias para se Ler na Escola