Mostrando postagens com marcador Fio de Citações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fio de Citações. Mostrar todas as postagens

sábado, 30 de agosto de 2014

De que precisamos...

"Não é de livros que você precisa, é de algumas coisas que antigamente estavam nos livros. (...) Os livros eram só um tipo e receptáculo onde armazenávamos muitas coisas que receávamos esquecer. Não há neles nada de mágico. A magia está apenas no que os livros dizem, no modo como confeccionavam um traje para nós a partir de retalhos do universo."

Ray Bradbury - Fahrenheit 451

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Especulação sobre a Verdade

"O que é a mentira, senão uma verdade na qual não acreditamos? A verdade portanto, por outro lado, é algo tão precioso que devemos guardá-la num cofre como se fosse a nossa própria vida. A verdade é um segredo a latir como um cão no abismo da nossa alma, a verdade é uma pequena estrela a brilhar na escuridão da mentira. A verdade é um apostema, um lúgrebe ciclone, uma fêmea alucinante."

Ana Miranda. A Última Quimera

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Sobre do que o homem é feito

"O homem consiste de mais peças, de mais partes que o mundo; não o que o mundo faz, mas sim o que o mundo é. E se aquelas peças fossem ampliadas, e fossem estendidas para o homem como elas se encontram no mundo, o homem seria um gigante, e o mundo um anão; o mundo, um simples mapa, e o homem, o mundo." (trecho Meditação IV)

Meditações, John Donne

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Origem de nossa Instabilidade

"Mãe, monogamia, romantismo. A fonte jorra bem alto; o jato é impetuoso e branco de espuma. O impulso não tem mais que uma saída. Não é de admirar que esses pobres pré-modernos fossem loucos, perversos e desgraçados. Seu mundo não lhes permitia aceitar as coisas naturalmente, não os deixava ser sãos de espírito, virtuosos, felizes. Com suas mães e seus amantes; com suas proibições, para os quais não estavam condicionados; com suas tentações e seus remorsos solitários; com todas as suas doenças e intermináveis dores que os isolavam; com suas incertezas e sua pobreza - eram forçados a sentir as coisas intensamente. E, sentindo-as intensamente (intensamente e, além disso, em solidão, no isolamento irremediavelmente individual), como poderiam ter estabilidade?"

HUXLEY, Aldous - Admirável Mundo Novo

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Filosofia HUXLEY

"Todos os moralistas estão de acordo em que o remorso crônico é um sentimento dos mais indesejáveis. Se uma pessoa procedeu mal, arrependa-se, faça as reparações que puder e trate de comportar-se , melhor na próxima vez Não deve, de modo nenhum, pôr-se a remoer as más ações. Espojar-se na lama não é a melhor maneira de ficar limpo."

Aldous Huxley - Prefácio 1946 - AMN

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Tai-pan

" Se não esta disposto a ser o segundo melhor, 'embarca o' quanto antes. O que eu estou a tentar fazer-te compreender é que para ser o Tai-Pan da Casa Nobre tem de se estar preparado para existir só, ser odiado, ter qualquer objetivo de valor imortal, e estar preparado para sacrificar qualquer pessoa de quem não se sinta seguro. Porque és meu filho ofereço-te hoje,  não experimentada, a oportunidade do poder supremo na Ásia. E por isso o poder de fazer quase tudo sobre a terra."
(CLAVELL, James, Tai-Pan.)


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Sobre a Juventude

" É ilusão pensar que a mocidade seja feliz, uma ilusão daqueles que a perderam. Os jovens sabem que são miseráveis, pois alimentam os falsos ideais que lhes foram incutidos e todas as vezes que entram em contato com o real sentem-se magoados e contundidos. Dir-se-ia serem vítimas de uma conspiração. Os livros que lêem, livros ideais pela necessidade de seleção, e a conversa dos mais velhos, que olham para o passado através da nuvem rosada do esquecimento, preparam-no para a vida irreal. São obrigados a descobrir por si próprios que tudo o que leram e tudo o que lhes ensinaram é mentira, mentira, pura mentira. Cada nova descoberta é mais um prego que lhes fixa o corpo a cruz da vida."



(Maugham, S. W. - Servidão Humana)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Sobre a Liberdade


"A Liberdade é estrangeira, como tantos outros deuses que os americanos prezam. Nesse caso uma francesa, apesar que, em deferência as sensibilidades americanas, os franceses tenham coberto aquele peito magnífico da estatua que deram de presente a Nova York. A Liberdade (...) é igual a uma casca de banana, só que com gosto ruim e ironia incluída. (...) A Liberdade é uma cadela que deve ir para a cama sobre um colchão de cadáveres, (...) uma cadela que gostava de trepar no refugo da guilhotina. Segura a sua tocha o mais alto que puder, minha cara, porque ainda tem um monte de ratos no seu vestido e um corrimento gelado escorrendo pelas suas pernas."
"Eu acho que ela é bonita" disse Shadow
"Essa" disse Wednesday "é a estupidez eterna do homem. Andar atrás da carne doce, sem perceber que não passa de uma cobertura bonita para ossos. Comida de verme. Você passa a noite se esfregando em comida de verme. Sem ofensa."

Neil Gaiman
Deuses Americanos

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Extraído do Jargão


"Sempre imaginei que poderia escrever uma coluna de economia usando un jargão falso assim, com pseudônimo. Não sei quanto tempo duraria até eu ser descoberto e desmascarado, mas acho que não seria pouco. Não estou dizendo que quem escreve sobre economia não sabe o que está escrevendo, ou se aproveita da ignorância generealizada para enganar. Estou dizendo que a análise econômica é uma arte tão imprecisa que, mesmo desconfiando do embuste, a maioria hesitaria antes de denunciá-lo. Quem garantiria que o meu enfoque diferente -minha defesa de um overspread corretivo sobre base de pagamentos, por exemplo- não era uma novidade que merecia estudo, já que ninguém parece mesmo saber o que é o certo?"


Luis Fernando Veríssimo,
Jargão - Comédias para se Ler na Escola

quinta-feira, 21 de junho de 2012

A Conversão de Ricardo


Antes de entrar no conteúdo desta postagem, propriamente dita, devo esclarecer um ponto que tem me incomodado: minhas postagens com cunho de debate religioso. Esse fato justificasse por minha atual leitura ser Os Irmãos Karmasovi do Dostoiévski (1879), livro do qual foi extraído a passagem abaixo, pequeno fragmento de uma longa conversa entre dois dos irmãos Karamasovi. Por ultimo, devo  alerta-los de que esta provavelmente não será minha ultima postagem que apresente essa abordagem.


"Possuo uma interessante brochura traduzida do francês, em que se conta a execução em Genebra, há cinco anos, de um assassino chamado Ricardo, que se converteu ao cristianismo antes de morrer, na idade de 24 anos. Era filho natural, dado por seus pais, quando tinha seis anos, a pastores suíços, que o educaram para fazer dele um trabalhador. Cresceu como um incomodado pequeno selvagem, sem nada aprender; aos sete anos, mandaram-no a fazer pastar o rebanho, ao frio e à umidade, mal vestido e faminto. Aquela gente não sentia nenhum remorso ao tratá-lo assim; pelo contrário, achava que tinha direito de fazê-lo, porque lhe haviam dado Ricardo como uma coisa e não julgava mesmo necessário nutri-lo. O próprio Ricardo conta que então, como o filho pródigo do Evangelho, quis mesmo comer a var­redura destinada aos porcos que eram engordados, mas era privado disso e batiam-lhe quando ele a roubava dos animais; foi assim que passou sua infância e sua mocidade, até que, tornando-se grande e forte, pôs-se a roubar. Aquele selvagem ganhava a vida em Genebra como jornaleiro, bebia seu salário, vivia como um monstro e acabou por assassinar um velho para roubá-lo. Foi preso, julgado e condenado à morte. Não se é sentimental naquela cidade! Na prisão, é logo cercado pelos pastores, pelos membros de associações religiosas, pelas senhoras patrocinadoras. Aprendeu a ler e a escrever, explicaram-lhe o Evangelho e, à força de doutriná-lo e de catequizá-lo, acabou por con­fessar solenemente seu crime. Dirigiu ao tribunal uma carta declarando que era um monstro, mas que o Senhor se havia dignado esclarecê-lo e enviar-lhe sua graça. Toda Genebra ficou emocionada, a Genebra filantrópica e beata. Tudo quanto havia de nobre e de bem-pensante acorreu à prisão. Beijam-no, abraçam-no: 'Tu és nosso irmão! Foste tocado pela graça!" Ricardo chora de enternecimento: "Sim, Deus iluminou-me! Na minha infância e na minha mocidade, invejava eu a varredura dos porcos; agora, a graça tocou-me, morro no Senhor!" "Sim, Ricardo, tu derramaste sangue e deves morrer. Não é culpa tua se ignoravas Deus, quando roubavas a varredura dos porcos e batiam-te por causa disso (aliás, tinhas bastante culpa, porque é proi­bido roubar), mas derramaste sangue e deves morrer. " Enfim chega o derradeiro dia, Ricardo, enfraquecido, chora e só faz repetir a cada instante: "Eis o mais belo dia de minha vida, porque vou para Deus!" "Sim", exclamam pastores, juizes e senhoras patrocinadoras, "é o mais belo dia de tua vida, porque vais para Deus!" O grupo se dirige para o cadafalso, atrás da carreta ignominiosa que leva Ricardo. Che­ga-se ao local do suplício. "Morre, irmão", gritam para Ricardo, "morre no Senhor, sua graça te acompanhe. " E, coberto de beijos, o irmão Ri­cardo sobe ao cadafalso, colocam-no na guilhotina e sua cabeça cai, em nome da graça divina."

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Deus Existe?


Fiódor: (...) Mas dize-me, no entanto, há um Deus ou não? Somente é preciso que me fales seriamente
Ivã: Não, não há Deus.
Fiódor: Aliócha, Deus existe?
Aliócha: Sim, existe.
Fiódor: Ivã, há imortalidade? Por pequena que seja, por mais modesta?
Ivã: Não, não há.
Fiódor: Nenhuma?
Ivã: Nenhuma.
Fiódor: Quer dizer, um zero absoluto ou uma parcela? Não haveria uma parcela?
Ivã: Um zero absoluto.
Fiódor: Aliócha, há imortalidade?
Aliócha: Sim.
Fiódor: Deus e a imortalidade juntos?
Aliócha: Sim. É em Deus que repousa a imortalidade.
Fiódor: Hum! Deve ser Ivã quem tem razão. Senhor, quando se pensa quanto de fé e de energia essa Quimera tem custado ao homem, em pura perda, desde milhares de anos! Quem, pois, zomba assim da humanidade? Ivã, pela derradeira vez e categoricamente: há um Deus, sim ou não?
Ivã: Não, pela derradeira vez.
Fiódor: Quem, pois, zomba do mundo, Ivã?
Ivã: O diabo, provavelmente – escarneceu Ivã.
Fiódor: O diabo existe?
Ivã: Não.
Fiódor: Tanto pior. (...)


(Dostoiévski, 1879 - Os Irmãos Karamazovi)

terça-feira, 26 de julho de 2011

Retrato da Influência


"A sua influência é, realmente, tão má como diz Básilio, Lorde Henry?"
"Não existe influência boa, Sr. Gray. Toda influência é imoral...imoral do ponto de vista científico"
"Porquê?"
"Porque influenciar uma pessoa é transmitir-lhe a nossa própria alma. Ela já não pensa com seus pensamentos naturais, nem arde com as paixões naturais. As suas virtudes não são reais para ela. Os seus pecados, se é que existem pecados, são emprestados. Ela se converte em eco de uma música alheia, em ator de um papel que não foi escrito para ela. A finalidade da vida é o desenvolvimento próprio. Realizar completamente a própria natureza, é o que devemos buscar. O mal é que, hoje em dia, as pessoas têm medo de si mesmas. Esqueceram-se do mais elevado de todos os deveres, o dever para consigo mesmas. São caritativas, naturalmente. Alimentam o faminto e vestem o andrajoso. Deixam, contudo, que as suas almas morram de fome e andem nuas. O valor nos abandonou. Talvez nunca o tenhamos tido, realmente. O temor da sociedade, que é a base da moral; o temor de Deus, que é o segredo da religião...são os princípios que nos regem. E, no entanto..."

Oscar Wilde
O Retrato de Dorian Gray